• Delmiro Gouveia, 31/01/2026
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Lucas Brito

MANON LESCAUT - ABADE PRÉVOST

OU DA INSUFICIÊNCIA DO AMOR


MANON LESCAUT - ABADE PRÉVOST

    Um livro com histórico de ter sido lançado à fogueira sempre atiça a vontade do leitor em folheá-lo, em devassá-lo e encontrar as perversões justificadoras da condenação moral e do fogo. Que prazerosa a leitura do proibido. Os olhos excitados do leitor vibram e até as piscadelas diminuem. Manon Lescaut, do Abade Prévost, carrega esse histórico, além de alguns outros detalhes famigerados.

    Comecemos com o seu autor, o Abade Prévost. Um francês do século XVIII, com uma trajetória religiosa cheia de desvios, incluindo algumas aventuras amorosas. Mesmo assim, Prévost conseguiu ser ordenado padre, sendo expulso da sua ordem religiosa pouco depois. Aparentemente, os beneditinos não estavam felizes com os escândalos morais do nosso autor.

    Manon Lescaut (1731) é o principal romance do Abade Prévost, considerado um clássico da literatura universal. À época, o romance foi acusado de atentar contra os bons costumes, contra os valores morais e religiosos. Não era o único na França setecentista; qualquer escrito julgado desviante pela Igreja e pelo Estado facilmente seria proibido de circular. Mas os franceses sempre deram um jeito de conseguir ler essas obras condenadas.

    O tráfico de livros proibidos era comum e, mesmo com poucos indivíduos alfabetizados, sempre havia leitores sedentos. Neste caso, sedentos por literatura libertina, como geralmente eram rotulados os livros desse tipo. Ademais, vale a pena apontar a inspiração de Alexandre Dumas Filho neste clássico para a escrita do seu A Dama das Camélias (1848).

    Apesar de o leitor atual não poder gozar por completo a experiência de uma leitura proibida, trata-se de uma leitura muito estimulante. Inclusive, temos um exemplar deste livro disponível na biblioteca pública de Delmiro Gouveia; espaço cada vez menos vívido em tempos de declínio do número de leitores. Nesses tempos, os clássicos são desprezados em favor de uma literatura pobre, superficial e comercial, cujo potencial formativo é nulo. Ou pior, os clássicos são superficializados em acessos de consumismo alimentados por “trends” no Instagram e no TikTok.

    Mas passemos ao nosso clássico. Manon Lescaut narra o amor conturbado entre a personagem Manon Lescaut e seu amado des Grieux. Manon é descrita ao longo do romance como uma mulher possuidora de uma beleza irresistível, fazendo-a objeto de desejo de quase todos os personagens masculinos da história. É esta beleza digna de uma serva de Afrodite o deflagrador da paixão enlouquecida do cavaleiro des Grieux, quando ambos eram ainda jovens; este com dezessete anos, aquela com dezesseis.

    O primeiro e fatal encontro entre Manon e des Grieux ocorre quando a personagem está sendo conduzida a um convento. Aparentemente, desde cedo Manon apresenta uma tendência acentuada para os prazeres carnais. Apaixonado à primeira vista, des Grieux se declara de imediato a Manon e propõe salvá-la do destino religioso. Assim inicia a aventura do casal, numa trajetória atravessada de infelicidades, com reveses aparentados a castigos divinos.

    Des Grieux é originário de uma família de boas condições, com um nome importante a ser zelado, com um futuro brilhante às armas ou à cruz e à bata, conforme previa seu pai. O encontro com Manon significou o sacrifício de todas essas expectativas, a frustração de sua família, principalmente do pai, e a desonra de seu nome.

    Com alguns trocados, Manon e des Grieux seguem viagem para Paris, para viverem o seu amor intenso, recíproco, o próprio vulcão Vesúvio em uma erupção de carnalidade e afetos. E quantas promessas de eternidade os pombinhos não derramam. Até o dinheiro acabar. Des Grieux estava disposto a viver com o mínimo possível, porquanto Manon permanecesse ao seu lado. O cavaleiro vai mostrar constância em seus sentimentos e ações relativos à sua amada ao longo de toda a narrativa; uma paixão infinda, uma admiração e um desejo inesgotáveis, pronto a morrer e a matar por Manon, a sofrer toda e qualquer moléstia física e moral.

    Enquanto des Grieux encarna esse ultrarromantismo com uma constância imperturbável, Manon materializa e é acusada pelo personagem de ser uma criatura inconstante. Quando acabou o soldo e a pobreza bateu à porta do jovem casal, Manon pouco hesitou em sacrificar tudo em nome do seu bem-estar material, da garantia de gozar uma vida com luxo e prazeres constantes. Essa Vênus caída usou a sua beleza como uma cortesã, e cortesã se fez ao primeiro homem de recursos a tentá-la. A sua escolha lançou des Grieux num inferno em vida; no excruciante sofrimento oriundo da traição do ser amado.

    Des Grieux permaneceu incrédulo da infidelidade de Manon por algum tempo, de todos os modos tentou criar justificativas. Por fim, teve de aceitar. Aliás, fica patente na história que esta não foi a primeira vez de Manon vendendo-se em prol de uma vida luxuosa. Graças a Manon e ao seu amante, des Grieux foi capturado e aprisionado na casa paterna por vários meses.

    O objetivo do seu pai era mantê-lo trancafiado até a paixão doentia passar. O plano parecia ter alcançado sucesso. Com o apoio da invejável amizade de Tiberge (amigo fiel, incansável e moderado em tudo), des Grieux decide abraçar os estudos religiosos, destacando-se ao ponto de Tiberge julgá-lo um exemplo de conversão cristã.

    Dois anos sem ver Manon, próximo a consagrar definitivamente sua vida aos desígnios do Senhor, bastou uma pequena entrevista com sua infiel amante e toda a dedicação de des Grieux à vida religiosa se esboroou no ar. Às primeiras carícias, mesmo acusando-a de infiel, inconstante, o patético personagem abandona tudo e foge com a sua Vênus caída.

    A traição de Manon poderia significar que a personagem não ama verdadeiramente des Grieux? Não. O decadente cavaleiro, em sua contínua decepção à família, possui a certeza de que o amor de Manon é verdadeiro e de que ela só ama a ele, mesmo quando nos braços e na cama de outro. A inconstância da personagem não é em relação ao seu amor, mas originada da incapacidade de aceitar uma vida sem algum luxo e os prazeres próprios aos indivíduos de fortuna na época.

    Portanto que des Grieux conseguisse manter um padrão de vida minimamente aceitável para Manon, esta não se deixaria levar por proposta alguma de qualquer outro cavaleiro mais rico. O problema? O personagem não possuía esses recursos. Sua família possuía posses e rendas significativas, mas o pai desse herói decadente preferia a morte a ajudá-lo a viver luxuosamente com a cortesã.

    Para conseguir dar a vida de luxo e prazeres indispensável a Manon, o cavaleiro irá se entregar a vários tipos de torpezas. Trapaças em casas de jogos, tentativas de roubo, golpes, empréstimos indignos ao seu fiel e esperançoso amigo Tiberge, gigolotagem (aventurar-se como gigolô com uma velha rica). Des Grieux estava disposto a quase tudo para manter Manon consigo, com uma exceção: não aceitava vendê-la às perversões de qualquer velho rico. Antes aceitaria matar do que aceitar outro homem possuindo a sua amada; inescrupulosamente, é exatamente esta a proposta feita a des Grieux pelo irmão de Manon para ambos escaparem da miséria.

    Mesmo sacrificando a sua moral e honra, des Grieux não consegue manter o padrão de vida desejado por Manon. Três vezes o personagem falha gravemente nessa tarefa ao longo da história, sempre alguma desventura recai aos proventos do casal, e três vezes Manon o trai. Três descidas ao inferno em vida, mas o amor de Manon por ele era inquestionável, e o amor dele por ela era como uma crucificação contínua, da qual o crucificado nunca desce da cruz. E três vezes Manon foi perdoada, e talvez por três tenha sido multiplicado o amor de ambos.

    São vários os problemas enfrentados pelos personagens nessa trajetória conturbada. Por mais de uma vez des Grieux acabou preso, chegando a matar um inocente durante uma fuga. Manon também foi confinada duas vezes, sendo condenada ao desterro à América com outras prostitutas; prática comum e que fez parte da estratégia de povoamento do Novo Mundo. Que, aliás, provavelmente alimentado por informações de relatos de viajantes, o autor descreve como povoado por selvagens.

    Por fim, gostaria de destacar um problema central nessa narrativa romanesca e libertina do Abade Prévost: a inconstância de Manon (já apontado não ser inconstância no amor) permite destacar um fato das relações humanas que muitas narrativas românticas antigas e contemporâneas às vezes tentam negar – apenas amor não é suficiente.

    Por mais que o amor possa ser considerado uma necessidade, por mais que amar e ser amada seja um desejo fundamental e uma das formas através das quais os seres humanos se sentem mais realizados existencialmente, há uma centena de outras coisas igualmente importantes e necessárias. Como Manon, não é incomum abrir mão de uma possível relação amorosa se os envolvidos não podem se manter no padrão de vida que julgam aceitável.

    Passada a paixão e sua violência afetiva, momento no qual os lábios e os lençóis parecem bastar para os amantes viverem para sempre, os demais fatores da vida humana e do convívio de um casal aparecem. É nesse momento que as incompatibilidades, as idiossincrasias de cada um, as perspectivas de futuro, os hábitos bons, principalmente os ruins, vão se tornando cada vez mais visíveis. Conforme o real da existência de cada um dos amantes emerge, mais a paixão afunda, e, se algo mais não foi construído – as relações naufragam.




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