• Delmiro Gouveia, 31/01/2026
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Aniceia Ribeiro

O idioma comum do desrespeito

Quando um líder influente ataca uma mulher, não a humilha apenas, recorda a seus apoiadores que o mundo ainda lhes pertence e que o insulto é um refúgio seguro em que podem se proteger do medo de perder o controle

Imagem ilustrativa. Foto: Divulgação
 O idioma comum do desrespeito

“Silêncio, porca!”, bradou Donald Trump, presidente dos EUA, a uma repórter da Bloomberg, Catherine Lucey, quando ela indagou por que ele não desejava divulgar os documentos relacionados à investigação de Jeffrey Epstein. Poucos dias depois, Trump voltou a insultar verbalmente outra jornalista, Mary Bruce, depois que ela o questionou sobre um potencial conflito de interesse envolvendo os negócios de sua família na Arábia Saudita, durante a visita do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman à Casa Branca.

Esse não é um caso isolado, mas o sintoma de uma corrosão política. Donald Trump não é o primeiro líder brutal e misógino da História. No entanto, suspeito que seja o mais fervoroso, e, até o presente momento, o mais impune. Alguns de seus apoiadores, como o ex-presidente, Jair Bolsonaro, e o filipino Rodrigo Duterte, se destacaram por exibirem uma rudeza similar.

Em um comício, em 2016, pouco antes de ser eleito presidente das Filipinas, Duterte proferiu uma obscenidade inacreditável sobre o estupro e assassinato da missionária australiana Jacqueline Hamill: “Eu estava furioso por ela ter sido estuprada, mas ela era tão bonita. Então pensei, eu deveria ter sido o primeiro.” Os manifestantes riram, acharam graça!

Esse episódio lamentável recorda outro semelhante, muito conhecido entre nós, brasileiros, quando, em 2014, à época, Deputado Federal, Jair Bolsonaro declarou ao Jornal Zero Hora que a deputada Maria do Rosário (PT) não merecia ser estuprada: “Ela não merece porque é muito ruim, porque é muito feia, não faz meu tipo, jamais a estupraria. Eu não sou estuprador, mas, se fosse, não a estupraria, porque não merece.”

O palco da misoginia, contudo, não se limita aos grandes líderes. Mais recentemente, a Presidente do México, Claudia Sheinbaum, foi alvo de assédio em público por um cidadão que, aparentemente embriagado, a tocou sem consentimento e tentou beijá-la, no meio de apoiadores.

Esse ato deplorável, cometido por um indivíduo que se sente autorizado a violar o corpo de uma líder nacional, sublinha que o problema não é apenas a grosseria de homens poderosos, mas sim a persistência de um sistema que valida o desrespeito à mulher em qualquer esfera.

Por trás da fachada do sujeito macho e poderoso que Donald Trump tanto se orgulha de demonstrar, há um frágil e inseguro homenzinho, assombrado pela força e mistério da natureza feminina. Trump ofende as mulheres, impulsionado pela mesma covardia eufórica que um pequeno poodle rosna diante de um leão enjaulado.

Alguns defendem que Donald Trump e seus seguidores utilizam esses insultos de maneira intencional como uma forma de linguagem tribal. Essa é a maneira que encontraram para clamar: “eu sou como vocês”. A misoginia pública serviria, assim, como uma espécie de tatuagem, um marcador de identidade.

Donald Trump e seus seguidores não são o principal problema neste momento confuso. O público que ri, aplaude, compartilha e reproduz essas grosserias é fundamental para o espetáculo. É nesse ponto que a misoginia deixa de ser um desvio e se transforma em um sistema: um idioma comum, uma gramática de pertencimento.

Quando um líder influente ataca uma mulher, não a humilha apenas, recorda a seus apoiadores que o mundo ainda lhes pertence e que o insulto é um refúgio seguro em que podem se proteger do medo de perder o controle.

Talvez seja por isso que esses episódios nos perturbam tanto, a nós mulheres, pois revelam que, apesar de todos os avanços, basta que alguém se beneficie desse tipo de comportamento para que muitos se sintam autorizados a agir de forma semelhante.

A boa notícia é que, ao contrário do que eles acreditam, o futuro não lhes pertence. O futuro é nosso, das valentes mulheres que rejeitam o “cala-te, porca!” e das sociedades que, graças a nós, começam a reconhecer o óbvio, nenhuma democracia perdura enquanto metade da população é desrespeitada.


A opinião de nossos colunistas não reflete necessariamente a opinião da Editora Guia Mais.





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