Aniceia Ribeiro
A tirania do não pensar
Essa receita parece estar funcionando na sociedade brasileira atual
A mitologia grega nos apresenta Procusto, um mito que simboliza a ignorância e sua brutalidade simbólica. Procusto é um personagem dissimulado, de índole perversa e ávido por poder, que queria subir ao Olimpo, porém não tinha dignidade para isso. Então, tratou de armar um plano para ganhar adeptos que o apoiassem em seu projeto de poder, demonstrando preocupação e oferecendo uma "cama" às pessoas cansadas que passavam por uma estrada.
No entanto, ninguém cabia direito nela. Quando a pessoa era maior do que a cama, Procusto a mutilava, cortando a cabeça ou as pernas. E, quando questionavam, ele media a cama com rigidez militar e dizia: "A cama é perfeita, o defeito está em vocês. Amoldem-se e caberão na minha verdade!"
Essa história lembra a obra de George Orwell, "A Revolução dos Bichos", em que Napoleão, o porco autoritário, impõe sua vontade sobre os outros animais, eliminando qualquer tentativa de pensar diferente dele. Quem não se conforma "perde a cabeça" e se torna um acéfalo, incapaz de pensar ou agir.
Mas o que parece um problema em Procusto e Orwell, ironicamente, torna-se uma virtude em Machado de Assis, no conto "Teoria do Medalhão", publicado em 1881. Ali, o pai aconselha o filho a se tornar um medalhão da sociedade brasileira, alguém com fama e riqueza, sem precisar pensar ou ter ideias. O segredo é ser simplório, ter um vocabulário limitado, frases simplistas e evitar qualquer coisa que exija raciocínio - ou seja, um acéfalo.
Infelizmente, essa receita parece estar funcionando na sociedade brasileira atual. A imbecilidade sequestrou o pensar crítico, e agora qualquer charlatão pode ser protagonista. A delinquência é aplaudida nas redes sociais, e hoje em dia, qualquer fanfarrão que lança frases de efeito é elevado ao patamar de Sócrates e Churchill, além de inúmeras pessoas se apequenarem para conseguir "fama" ou para caber em padrões autoritários e medíocres.
A cama de Procusto também pode receber outros nomes: "meu dogma", "meu político de estimação", "minha opinião", quando ensejam fanatismo e intolerância. Essas camas da ignorância têm o tamanho da pequeneza, e só cabem nelas quem aceita ficar acéfalo, servil e se põe de joelhos.
O Mito de Procusto, Orwell e Machado de Assis são clássicos porque suas ideias são atemporais e fazem sentido hoje. É preciso questionar as "camas de Procustos"; uma sociedade que pensa jamais caberá nelas.

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