• Delmiro Gouveia, 31/01/2026
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Aniceia Ribeiro

O poder das palavras

Como julgar a falha do outro se não estamos prontos para termos nossas falhas julgadas

Imagina Ilustrativa
O poder das palavras

A peça teatral "Humulus, o Mudo", de Jean Anouilh, apresenta a personagem protagonista de mesmo nome, Humulus, e, com ele, uma situação reveladora sobre a comunicação humana. Humulus consegue dizer uma única palavra por dia, mas se ficar um dia sem falar, essa palavra se acumula para o dia seguinte, permitindo que ele fale duas palavras, e assim por diante. Todos os dias Humulus deve dizer uma palavra à sua avó, a baronesa, principalmente no dia de seu aniversário.

No dia em que deveria dizer a palavra "prosperidade", Humulus surpreende a todos com um bilhete em que diz que está apaixonado e que passará trinta dias sem dizer palavra alguma, de forma a poder fazer, com essas trinta palavras, sua declaração de amor. Com a ajuda de seu professor, Humulus escreve uma declaração de amor com essas trinta palavras. No entanto, nervoso, no dia em que encontra sua amada, Humulus acaba por se atrapalhar e gasta quase todas as suas palavras falando da distância de onde estão até a praia mais próxima.

Sobram-lhe apenas três palavras após a conversa desnecessária, que ele usa para dizer: "Eu te amo!" Diz com sinceridade e emoção. Porém, ironicamente, a jovem e bela Helene, sorrindo, diz, enquanto tira uma trombeta da bolsa e a leva ao ouvido: "Eu tenho problemas auditivos, senhor, não entendi nada do que disse", e pede que ele repita.

Essa cena é considerada uma comédia no teatro do absurdo. Mas, para mim, é uma tragédia das mais doloridas que se possa imaginar. É um retrato fiel da incomunicabilidade humana, em que não importam nossas intenções, nossos desejos e nossos atos, pois vamos necessitar sempre de outra pessoa para que a comunicação se estabeleça, e essa outra pessoa pode ser, e normalmente é, uma verdadeira desconhecida para nós, alguém que julgamos incapaz de nos entender realmente.

Porém, o texto pode ser lido de outra forma. Em vez de falar da incapacidade do receptor, pode falar da incapacidade do emissor. Alguns podem argumentar que Humulus foi precipitado e deveria ter conhecido melhor Helene antes de tentar se comunicar com ela, e assim conheceria sua deficiência e se adequaria a ela. De vítima de um mau receptor, o jovem mudo passa a ser o culpado, e a bela Helene uma vítima desse ser sem habilidade alguma para a comunicação humana.

Mas também podemos ler o texto de outra forma, em que tanto emissor quanto receptor são, ao mesmo tempo, vítimas e algozes. Ambos poderiam ser mais eficientes em sua comunicação, se esforçando para se fazerem, ao mesmo tempo, conhecer e serem conhecidos. Se a trombeta representa a surdez (física, mental, intelectual), a mudez de Humulus nos remete à incomunicabilidade, tanto quando nos faltam palavras quanto quando as temos de sobra.

Como julgar a falha do outro se não estamos prontos para termos nossas falhas julgadas? Na busca por nos defendermos, desperdiçamos palavras demais e expomos nossa surdez existencial. De todas as coisas difíceis que temos de fazer, nos comunicar com o outro me parece a mais difícil delas. E, ao mesmo tempo, como são mágicos os instantes em que isso se faz de modo perfeito. Nessas horas, as palavras se tornam desnecessárias e ouvir deixa de ser algo físico, tornando-se uma compreensão de almas. Nos surpreendemos e dizemos que estamos lendo a mente um do outro. E é correto dizer isso, pois, nesses instantes raros, estamos realmente nos comunicando.



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