• Delmiro Gouveia, 31/01/2026
  • A +
  • A -
Publicidade

Lucas Brito

DELMIRO GOUVEIA: ECOS DO CEMITÉRIO VELHO (CONTO)


DELMIRO GOUVEIA: ECOS DO CEMITÉRIO VELHO (CONTO)

O sertão delmirense não é mais o mesmo. Casas demais por todos os lugares, ruas demais, iluminação demais. Algo excelente para o desenvolvimento urbano da cidade, mas desagradável para os praticantes de atos à margem da lei. Entretanto, as lâmpadas moderníssimas de LED e as câmeras de longo alcance ainda não bastam para inibir a saída de alguns demônios ao mundo exterior.            


Delmiro Gouveia ainda possui lugares escuros, nos quais a voz de uma vítima é incapaz de ecoar até o ouvido de um salvador ou da Pelopes (Pelotão de Operações Especiais). O Cemitério Velho da cidade, onde está enterrado o corpo do seu fundador, Delmiro Augusto da Cruz Gouveia, é um desses lugares.


Pouca iluminação, lâmpadas quebradas frequentemente, nenhuma câmera, vigilância e dificuldade de entrada inexistentes, além de, tratando-se de um cemitério, um espaço com inúmeras tumbas antigas – e alguns corpos novos. Poder-se-ia dizer: o que acontece no Cemitério Velho, fica no Cemitério Velho. Noticiar os acontecimentos desse espaço parece ser um tabu entre os jornalistas delmirenses. Então, o que lá acontece, fica condenado ao segredo forçado imposto aos seus moradores originais.


Em um sábado não muito distante, eu estava passando por aquelas redondezas. Estava a caminho de uma roda de amigos para varar a noite em notas de cerveja gelada, músicas duvidosas e conversas imorais. Ao passar exatamente em frente ao Cemitério Velho, às quatro horas da tarde, e olhar alguns metros porta adentro, foi impossível não ter a atenção captada pela cena: cinco tigelas grandes de barro (em cada tigela uma grande vela branca acesa em seu meio), uma ao norte, outras duas a leste e oeste, e mais duas a sudeste e sudoeste, todas cheias de sangue, vários frangos mortos em redor das tigelas e um bode de tamanho anormal decapitado no espaço interior demarcado pelas tigelas.


A cabeça do bode? Não a vi. O corpo, por outro lado, estava coberto por centenas de moscas. Não soube dizer há quanto tempo estava lá. O sangue nas tigelas e os respingos caídos na terra se encontravam coagulados e bastante escuros. Entrei para ver tudo de perto; um tanto de curiosidade e ousadia me ferviam no estômago. Porém, ao levar uma lufada de ar batizada com sangue e carne começando a putrefar, desisti da empreitada e segui meu rumo.


À noite, por volta das doze horas, eu estava voltando para casa e o meu caminho tradicional passava pelo cemitério. Eu estava mais do que ébrio, o fogo da cachaça me cozinhava o juízo e animava algumas fantasias de transgressão. Resolvi cometer uma pequena profanação àquele espaço de descanso eterno. Recostei-me à parede do cemitério e comecei a mijar. A imagem de mais cedo estava distante da minha consciência, mas o cheiro pútrido logo a trouxe de volta.


Mais uma vez me questionei sobre o destino da cabeça daquele diabo de bode. Apressei-me para terminar o serviço do baixo ventre. Quando estava para fechar o meu zíper, ouvi um som horripilante, algo como um grito engasgado, que, na verdade, mais lembrava o balir dos bodes. Arrepiei-me até em partes que desconhecia a possibilidade de arrepios. Saí pinotando dali, por duas vezes quase caí na estrada de barro.


Senti meu coração acelerar como raramente acontece. Desci a estrada rapidamente e logo me entrou pelas narinas outro cheiro desagradável: o cheiro de couro curtido do velho curtume. Ao passar pela casa de curtição e pelas pilhas de couro descartadas à revelia e com chamas as devorando vagarosamente, aquele incenso me fez imaginar como mataram e decapitaram aquele bode do cemitério. Uma agonia me invadiu o peito ao imaginar a sensação da faca rasgando a pele, os músculos e as artérias do pescoço.


Essa imagem trouxe outra ainda mais aterrorizante: e se, no lugar do bode, um ser humano tivesse sido supliciado e desmembrado daquela forma? E se tivesse sido eu?! Quando voltei a mim, já tinha chegado à avenida e o incenso do couro curtido não me alcançava mais. 


Fui para casa, mas não consegui esquecer essa experiência. Amanhecido o dia, a ressaca carcomendo-me a alma, resolvi olhar os sites de notícia de Delmiro. Nenhuma informação sobre o bode desmembrado e a cena de terror no cemitério. Certamente aquele evento no cemitério não passou despercebido e várias pessoas já deveriam ter tomado ciência do que aconteceu lá. De qualquer modo, não insisti e passei a tomar conta da minha própria vida. Afinal de contas, aquilo não me dizia respeito; que as autoridades responsáveis se virassem e encontrassem o responsável.


Na semana seguinte, no glorioso e escaldante sol delmirense, às quatro horas da tarde: hora de entonar o caneco com cerveja gelada e petiscos de natureza altamente duvidosa. Passei pelo cemitério com mais dois amigos e tudo estava normal. Nem o primeiro sinal da sanguinolência passada.


Quando estávamos retornando, por volta das duas horas da madrugada, passando pelo velho campo de futebol antes do cemitério, com poucas casas e luzes ao redor, a escuridão se embrenhava cemitério abaixo e o som do antigo riacho poluído era audível de longe, aparentemente mais cheio do que de costume.


Ainda estávamos distantes do cemitério, quando uma labareda subiu acima da altura dos muros. Ficamos imediatamente atônitos, a cachaça saiu dos couros e do espírito na mesma hora. Não tivemos coragem de sair correndo em direção ao cemitério, mas nos abaixamos e fomos aos passos curiar o que acontecia.


Eu logo pensei na cabeça decapitada do bode e naquela cena grotesca da semana anterior. Andando devagar e tentando não fazer barulho, chegamos à porta do cemitério – com seu portão sempre arrombado. A labareda havia desaparecido, mas ainda permanecia uma luminosidade.


Colocamos as cabeças no portão e olhamos para dentro. A luminosidade vinha da parte de trás do túmulo de Delmiro Gouveia. Pensamos em entrar, mas o medo falou mais alto. Ninguém sabia o que encontraria lá nem se haveria alguém ainda. Ficamos ali, parados, por alguns minutos. Como não surgiu nenhuma movimentação, decidimos entrar e conferir que presepada era aquela.


Quando chegamos ao ponto, a cena era de gelar a espinha: cinco tigelas cheias de sangue, cada uma com uma grande vela branca em seu meio e localizadas em cinco direções, exatamente como na cena do corpo do bode. Porém, o pior estava no centro do espaço formado pelas tigelas: não havia nenhum animal sacrificado, mas, no centro, estava uma cabeça humana. E só Deus sabe onde estaria o seu corpo!


Impossível não gritarmos! Um dos meus amigos saiu correndo imediatamente. Eu e o amigo que ficou, acredito termos sofrido alguma paralisia devido ao terror. Aquela cabeça estava no centro, o sangue ainda escorria da parte do pescoço onde fizeram o corte. O rosto estava completamente ensanguentado. No lugar dos olhos, restavam apenas duas cavidades escuras. Na boca, haviam introduzido uma vela preta, cuja cera derretida respingava no rosto. Neste momento, eu vomitei e quase desmaiei. Pelos longos cabelos pretos, acredito se tratar de uma mulher.


Meu amigo começou a me arrastar para fora do cemitério. Quando começamos a sair, um barulho começou a ecoar do fundo do cemitério, e de lá saiu correndo uma figura absolutamente estranha. Àquela altura não parecia humana, e, se logo depois tivessem me perguntado o que vi, teria dito ser o próprio diabo!


A figura, certamente humana, correu em direção ao muro de trás do cemitério. Antes de pular o muro, pudemos perceber bem uma característica daquele ser abominável: ele mancava de uma das pernas. O barulho daquela perna arrastando a terra e o mato do cemitério ficou gravado nos meus neurônios.


Não tivemos outra reação a não ser fugir ainda mais rápido depois do vislumbre daquele ser. Ao sairmos do cemitério, não encontramos nosso amigo e só fomos ter notícia dele no dia seguinte. Corremos o máximo possível, o tanto que corpos obesos e ébrios conseguem correr sem infartar. Seguimos em direção à prefeitura da cidade. Chegando lá, encontramos uma viatura da polícia militar e relatamos tudo. No dia seguinte, pela primeira vez, li uma notícia sobre o Cemitério Velho.




COMENTÁRIOS

LEIA TAMBÉM

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.