Lucas Brito
A SOLIDÃO DOS MORIBUNDOS
PENSAR A MORTE COM NORBERT ELIAS
Elias sustenta que há três formas de lidar com a morte: podemos mitificá-la, o que ocorre quando damos uma continuidade à vida em um mundo-além, como o Inferno e o Céu; podemos ignorar a morte sob o respaldo de alguma fantasia de imortalidade, agindo como se a morte fosse um acontecimento que, por algum motivo, não recairá sobre nós; e podemos ainda — esta é a forma que o sociólogo considera mais adequada e saudável aos contemporâneos — ajustar o nosso comportamento à percepção da finitude inevitável e agir para tornar esse fato menos traumático para os moribundos e para os que continuarão a caminhar sobre esta terra.
A crise provocada pela pandemia escancarou muitos problemas dos contemporâneos com a morte, entre eles o que dá nome ao ensaio de Norbert Elias: a solidão dos moribundos. No diagnóstico do sociólogo, os contemporâneos têm lidado mal com a morte, evitando, às vezes desesperadamente, as reflexões sobre a finitude.
É necessário nos esforçarmos para lidar com a morte daquela terceira forma apontada por Elias. Assim seremos capazes de olhar a morte como um processo com vários momentos (muitas vezes mais agonizantes que a morte biológica definitiva) que necessitam de atenção e ação dos que vivem e cuidam dos moribundos.
Encarada como processo, a morte aparece como possuindo várias etapas. O caminho até o momento fatal é acompanhado de um processo de isolamento daquele que possivelmente morrerá, velhos e doentes, em que as suas relações com o mundo dos vivos vão sendo cortadas aos poucos. Algo muito penoso para esses indivíduos.
Um dos espaços onde esse processo de isolamento ocorre mais brutalmente são os hospitais: aqueles que são internados muitas vezes perdem, se não completamente, a maior parte das suas relações sociais; nem familiares nem amigos, ao que se soma um tratamento por vezes gélido dos profissionais de saúde.
O sentimento de solidão resultante desse isolamento pode ser mais angustiante e doloroso do que o momento fatal, ainda assim assume voga no imaginário da população a ideia de que os hospitais são os melhores lugares para se morrer; espaços onde se realizam os procedimentos para estender a vida biológica, onde a vida nua é vestida pela dor.
A ideia de que uma morte confortável — o que, para Elias, se daria com a manutenção dos laços sociais até o último instante do moribundo — possa ser melhor do que o isolamento para a extensão da vida biológica é uma ideia muitas vezes estranha aos contemporâneos. Consequência da tendência de nosso tempo a afastar a morte e tudo o que a envolve para fora da vida cotidiana. Exemplo contundente disso, dado por Elias, está no modo como lidamos com as crianças: queremos a todo custo que a morte seja uma realidade inexistente para elas, evitando expô-las a qualquer signo do mundo da morte.
Foram as condições históricas de nossa época que permitiram o afastamento da morte e dos mortos da vida mais cotidiana. Só nos últimos séculos as coisas começaram a ser assim. Nem sempre, como aponta o sociólogo alemão, tivemos nossos cadáveres tão inodoros e esteticamente belos, com tom de pele parecido com o dos vivos – quando o tanatopraxista (aquele profissional que prepara o corpo para o funeral) faz um bom trabalho.
Na maior parte da história, a morte e os mortos estiveram mais presentes do que hoje na vida cotidiana das pessoas, começando por a família ter sido a instituição social responsável pelos cuidados com os doentes e moribundos, e com os seus corpos quando faleciam, preparando-os para os rituais funerários.
No século da guilhotina, na França, era comum as pessoas se reunirem para assistir às decapitações e aos enforcamentos. Ainda no século XIX, no Brasil, as pessoas eram enterradas nas igrejas – não sendo incomum a execução das missas ao miasma dos mortos inadequadamente sepultados nos porões.
Na contemporaneidade, a pandemia do coronavírus escancarou dois dos principais problemas tratados por Elias em seu ensaio: a solidão dos moribundos e o lidar diretamente com a morte desnudada.
De um lado, os pacientes acometidos por covid-19, a doença causada pelo vírus, foram completamente isolados nos hospitais, vindo a morrer solitariamente; por outro lado, os casos de pessoas morrendo sem assistência médica alguma, a exemplo de Guayaquil, cidade do Equador que tomou os jornais de todo o mundo entre março e abril de 2020, com os seus mortos sendo abandonados, jogados nas calçadas e ruas e incinerados.
Foi um momento desolador tanto para os vivos que continuaram sua jornada nesta terra quanto para os moribundos. Entre estes, muitos morreram solitariamente, às vezes estando em coma induzido; entre aqueles, muitos perderam seus entes sem a possibilidade de executar os rituais funerários, caindo numa situação em que o próprio processo de luto se vê comprometido.
Estilhaçando o véu da morte, a pandemia nos fez ver explicitamente, e em grande dimensão, o processo de desligamento do mundo social que os vivos muitas vezes impõem àqueles que estão na esteira da morte. Foram inúmeros os casos em que vimos pessoas acometidas pelo coronavírus serem isoladas em suas próprias casas e hospitais ou simplesmente abandonadas para morrer sozinhas em qualquer lugar.
Se o que queremos é uma sociedade que lide adequadamente com a morte e os mortos, que trabalhe contra a solidão dos moribundos, temos de encontrar meios de fazer os doentes e moribundos — os que estão isolados em casa e nos hospitais — sentirem que não foram simplesmente descartados pelos vivos, que eles mesmos ainda estão vivos e são desejados pelos seus que continuarão a viver. Encontrar esses meios é um esforço social amplo, e talvez impossível de alcançar neste momento, nos termos que uma consciência moral menos negligente apontaria como necessário.

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