• Delmiro Gouveia, 31/01/2026
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Lucas Brito

DUMAS FILHO – A DAMA DAS CAMÉLIAS (BREVE RESENHA)

A TODAS AS CORTESÃS DO MUNDO


DUMAS FILHO – A DAMA DAS CAMÉLIAS (BREVE RESENHA)

Alexandre Dumas Filho, bastardo do autor de Os Três Mosqueteiros e O Conde de Monte Cristo, escritor do célebre romance A Dama das Camélias. Um dos romances mais condenados pelos defensores dos bons costumes e da boa moral do século XIX.

Nobres guardiões da moral, condenam não a luxúria em si, não o frequentar as “casas de facilidades” e se lançar aos braços de uma bela prostituta, mas a possibilidade de um homem “estragar” a sua vida e o nome da sua família ao viver um amor incandescente com uma dessas criaturas de Sodoma e Gomorra e torná-la sua esposa.

Afirma-nos o pai do romanesco e intenso Armand ao aconselhar seu filho: “ao lado da amante há a família, e além dos amores, existem os deveres; à idade das paixões sucede a idade na qual o homem, para ser respeitado, tem necessidade de estar solidamente assentado em uma posição séria”.

Ora, a tudo isso Armand estava disposto a sacrificar pelo amor da sua amada Marguerite Gautier, uma das mulheres mais bonitas e caras de Paris, com um padrão de vida altamente dispendioso e com dívidas até o pescoço – ao ponto de o nosso herói ser aconselhado por uma velha cortesã a não assumi-la, apenas consumir aquele amor nas chamas dos corpos jovens e sedentos.

Esse romance trágico e “imoral” do Oitocentos nos traz várias possíveis reflexões sobre os costumes e a moral daquele século e uma excelente oportunidade para uma comparação em relação à prostituição em nossos dias. A glamourização atual da prostituição é um dos principais pontos para isso.

Vivemos numa era de exaltação das mulheres do “job”, uma romantização da prostituição que passa por milhares de vídeos nas redes sociais a músicas virais: “Hoje em dia é difícil encontrar/Uma menina que não trabalha no job”. Este é um movimento perigoso em relação ao entendimento geral da população sobre a prostituição, facilmente enveredando para a ignorância do problema que é a prostituição, para o esquecimento de que grande parte dessas mulheres não adere à “profissão” em circunstâncias nas quais as suas escolhas não são direcionadas por necessidades maiores.

As discussões acadêmicas são variadas em relação à prostituição, com conclusões muitas vezes opostas. As políticas públicas em relação às “profissionais do sexo” aparentam ter mais complicações ainda. Entretanto, um fato prevalece: há variação na forma como vivem e condições sociais às quais essas mulheres estão submetidas. 

As prostitutas de luxo não refletem as condições de vida da maioria das mulheres, daquelas que estão nos cabarés de muitos interiores, como os próprios cabarés da nossa amada Delmiro Gouveia. Ou como os inumeráveis cabarés visitados e divulgados por aventureiros do Instagram; algo que virou um novo ramo de publicações, tendo a nossa vizinha Paulo Afonso divulgado um dos seus estabelecimentos de alvará duvidoso.

Uma das principais conclusões do apresentado acima é que a prostituição se tornou um fenômeno abertamente aceito por grande parte da sociedade, romantizado e glamourizado por muitos. Não seria excessivo afirmar que não temos mais um senso moral forte o suficiente para gerar “consciência pesada” em muitas daquelas que optam pela profissão (em condições nas quais poderiam optar pelo contrário) – nem sequer um senso moral encoberto pela hipocrisia como em épocas anteriores.

Um reflexo disso? Os inúmeros canais de “mulheres da vida”, altamente seguidas nas redes sociais, falando sobre os perrengues e realizações da vida “trabalhando no job” (delicioso pleonasmo); deleitando os seguidores padecentes de uma curiosidade quase mórbida. Como nos fala Machado de Assis em Dom Casmurro: “Também se goza por influência dos lábios que narram”.

Por outro lado, aquele mundo oitocentista possuía a sua própria visão sobre a prostituição. Esta, muitas vezes, julgada como um mal menor: as cortesãs cumprem o papel social de saciar os homens e salvar a honra e virgindade das “moças direitas e de família”. Até os dias atuais, incluindo o Brasil, podemos rastrear sem dificuldade alguns juízos semelhantes, bastante trabalhados em obras como Gabriela, Cravo e Canela de Jorge Amado, e na novela Gabriela (2012).

Mas, assim como nos dias atuais, no Oitocentos europeu, e em qualquer época e espaço, essas visões geralmente não são uníssonas, por mais que alguma seja predominante. Para o período do século XIX para trás, poderíamos citar duas visões extremas: a prostituição corrompe a mulher de forma irreversível; a prostituição não corrompe a mulher irreversivelmente, sendo possível a sua salvação.

No romance de Dumas Filho, a visão que predomina é a de que a prostituta é uma criatura passível de salvação. Inclusive, há mulheres tão puras e santas que, mesmo submetidas às maiores abominações do mundo, não têm a sua alma jamais maculada.

Contudo, em sua história, Dumas mostra que, nesta vida, nesta terra e para a maioria das cortesãs, a salvação só é alcançada a dolorosas penas. As benesses da redenção só serão usufruídas no além-mundo. Este é o caso da heroína trágica Marguerite Gautier, que amou verdadeiramente Armand Duval. Para este, como a própria havia expressado, o seu passado sempre seria uma cicatriz aberta para Armand, e ele sempre a faria sangrar por suas máculas passadas quando o amor do casal estivesse em crise, à primeira briga, à primeira desconfiança.

Estranhamente, em nossos belos dias atuais, não me recordo de qualquer manifestação de uma cortesã contemporânea julgando-se previamente lançada ao fogo do inferno por sua ocupação libertina. E não sejamos injustos, quase ninguém nos dias atuais se imagina como passível de ser condenado ao eterno fogo do inferno e seus terríveis castigos. A época na qual as pessoas se tremiam de medo ao ler a narrativa de um Dante Alighieri ficou para trás.

Marguerite alcançou a sua redenção ao sacrificar a sua possível felicidade com Armand em nome do futuro deste. Algo que o seu amado, que nos dias atuais seria chamado diagnosticado com um possível transtorno de personalidade com instabilidade emocional, só foi reconhecer tarde demais. Antes disso, Armand pisou e fez Marguerite sofrer como um dos piores seres que já caminharam na face da terra. O herói da música de Odair José “Vou Tirar Você Desse Lugar” seria um modelo de príncipe romanesco comparado às canalhices realizadas por Armand.

Enfim, são muitos caminhos e reflexões pelos quais este romance pode nos levar. A mim, não me cabe e não me coloco como juiz moral “natural” da causa. Àqueles que quiserem ler o romance, certamente se enriquecerão com a experiência. Uma leitura prazerosa tanto aos nobres da moral quanto aos libertinos. A estes, que mais se aproximam da minha estirpe, acredito que, ao término da leitura, se sentirão no dever de um elogio a todas as cortesãs do mundo.




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