Lucas Brito
HÁBITOS ATÔMICOS DE JAMES CLEAR – PEQUENA RESENHA
O olhar cirúrgico e a bagagem de leituras mais tradicionais não deixam dúvida – trata-se de um livro de autoajuda. E com um título dos mais comuns do mercado editorial de autoajuda. Sem dúvida, esteve presente no CLIPE 2025 (Circuito Literário de Pernambuco) e desceu goela abaixo de muitos professores pernambucanos e, não estranhamente, com algumas pitadas de superfaturamento… Assim falam as más línguas e, às vezes, elas falam a verdade. De qualquer modo, não cabe a nós elucidar essa suspeita.
A literatura de autoajuda está no topo das vendas. E assim tem sido há muitos anos. Vive-se uma carência existencial de sentido na vida contemporânea, um vazio crônico, um vício na rapidez e nas experiências fáceis e imediatamente recompensadoras, o que gera muitos dos nossos amigos ávidos por livretos dessa categoria.
Livretos recheados de soluções fáceis, de promessas mirabolantes, de simplificações asquerosas sobre como sair do fundo do poço e tornar-se um Mark Zuckerberg, um Elon Musk, um Warren Buffett ou qualquer outro desses ocupantes das listas atuais de “grandes modelos” a serem seguidos, exemplos de sucesso, de realização humana.
Hábitos Atômicos é diferente de tudo isso? Não. O tom de panaceia universal soa forte ao longo das fluidas páginas do livreto, ainda que o autor destaque humildemente, vez ou outra, não ser esse o seu objetivo. Entretanto – e aqui faço o meu elogio a este livro, por mais que o termo “autoajuda” quase me revire as entranhas. Por que este elogio? Pelo uso prático ao qual James Clear propõe o seu livro. E, no contexto atual, aprender sobre a construção de hábitos mostra-se fundamental para facilitar a saída do poço e romper o torpor existencial aniquilador dos nossos dias.
O mundo atual sofre de uma diluição contínua das estruturas fundamentais para a estabilidade da vida cotidiana e, entre estas, os rituais figuram entre os mais afetados. O filósofo contemporâneo Byung-Chul Han dedica o livro O desaparecimento dos rituais à investigação desse problema. Os rituais conferem estabilidade à vida humana, à nossa identidade. Para melhor aproveitar Hábitos Atômicos, vejo produtividade na aproximação entre os termos “rituais” e “hábitos”.
Essa estabilidade, em grande parte, perdeu-se devido ao excesso de individualismo e psicologização, males de nossa época, produtores de indivíduos patologicamente centrados em si mesmos, em suas próprias existências. Nessa condição, para esses indivíduos, apenas eles mesmos importam; o mundo deve existir para eles – tornam-se a coisa mais importante a existir neste mundo. Assim se traduz um dos sentidos do individualismo extremo.
O excesso de psicologização conduz à construção de uma consciência e de uma afetividade nas quais o Eu aparece como ponto de convergência ao qual todos os significados e sentidos do mundo se submetem. Todas as experiências dos indivíduos devem alimentar esse Eu. Nele reside toda a possibilidade de felicidade e realização humana. O egocentrismo desse Eu ganha proporções gigantescas; transforma-se em um sol negro fadado a implodir.
Essa centralização patológica do indivíduo e do seu Eu é apenas mais um fruto da história e da cultura das sociedades humanas. O ser humano já não possui forma natural de ser. Desde que esse bípede se abriu para a cultura, não pôde mais retornar ao seu Estado de Natureza.
O grande problema: a forma de ser contemporânea revela-se trágica para parte significativa dos indivíduos. Individualismo, psicologização e desaparecimento dos rituais eliminam a estabilidade da vida cotidiana e destroem o senso de realização existencial. O indivíduo emergido desse contexto é niilista por excelência.
Estruturar a vida cotidiana, instaurar rituais, entregar-se a um sentido de funcionamento do mundo sem se colocar como centro compõe um dos caminhos para a reconquista dessa estabilidade existencial. Nesse contexto, compreender a formação de hábitos adquire grande valor. As ferramentas práticas e algumas compreensões fundamentais apresentadas por James Clear revelam-se inegavelmente úteis para reestruturar a existência cotidiana de qualquer indivíduo.
Querendo ou não, todos somos afetados pela configuração do mundo atual; nossa mente, comportamento e cultura emergem da forma que as sociedades se estruturam em nosso tempo. Não sou arrogante a ponto de negar a utilidade de tudo aquilo capaz de nos ajudar a mudar a organização da vida cotidiana rumo a algo mais produtivo. Não falo daquela produtividade positiva e patológica propagada aos quatro ventos, que reduz o ser humano ao animal laborans, como assinala sabiamente Hannah Arendt.
Refiro-me a uma produtividade oposta a uma existência sacrificada ao consumo, aos prazeres fáceis e efêmeros, à leveza de uma vida reativa a qualquer esforço e sentido mais profundo. Hábitos Atômicos oferece isso? Nem chega perto. Porém, repito: o livro traz ferramentas úteis. Minha recomendação: aproprie-se do que for útil e pronto.

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