Lucas Brito
A GERAÇÃO ANSIOSA DE JONATHAN HAIDT – PEQUENA RESENHA
Como os smartphones afetam a infância e a adolescência
As duas teses centrais deste livro, aclamado como best-seller pelo New York Times (o que sempre levanta suspeita pelo excesso de propaganda para o consumo), são: o fim da infância baseada no brincar e o aparecimento da infância baseada no celular, os quais implicaram uma superproteção na realidade física e uma subproteção na realidade virtual, se apresentam como fatores fundamentais na era dos transtornos mentais da contemporaneidade.
A Geração Z, nascida a partir de 1995, é a mais afetada por esse fenômeno. Gradualmente, a partir dos anos 1980, desenvolveu-se uma visão paranóica do mundo físico. Enxergado como carregado de perigos por todos os lados, os pais começaram a limitar a autonomia dos filhos para protegê-los dos riscos do mundo; mais à frente, com o aparecimento da internet e dos smartphones, as crianças e adolescentes foram lançados ao mundo virtual, expostos a riscos e violências aos quais muitos pais até hoje permanecem desatentos.
A Geração Z, nascida a partir de 1995, é a mais afetada por esse fenômeno. Gradualmente, a partir dos anos 1980, desenvolveu-se uma visão paranóica do mundo físico. Enxergado como carregado de perigos por todos os lados, os pais começaram a limitar a autonomia dos filhos para protegê-los dos riscos do mundo; mais à frente, com o aparecimento da internet e dos smartphones, as crianças e adolescentes foram lançados ao mundo virtual, expostos a riscos e violências aos quais muitos pais até hoje permanecem desatentos.
Essa geração vive uma realidade diferente de qualquer outra vivida ao longo da história humana. Segundo o autor, trata-se de uma nova era que tem reconfigurado a infância. Conectividade contínua, atenção fragmentada, sono desregulado, diminuição das interações sociais face a face – a evolução humana não nos preparou para isso.
A Geração Z nasceu imersa nessa realidade, na qual a própria distinção entre "real" e "virtual" é borrada. Nela, várias demandas do nosso desenvolvimento pessoal e social sofrem interferências diretas dos anseios e demandas da realidade virtual.
Likes, comentários, compartilhamentos, padrões estéticos e comportamentais, modismos e os seus promotores (digital influencers) ditam como deve ser a existência social de crianças, adolescentes e adultos – além de servir como modelos sociais do que esses indivíduos devem se tornar.
Os dados sobre saúde mental apresentados pelo autor apontam essa nova realidade social como possível responsável por um aumento de 150% em episódios depressivos entre meninos e meninas, a partir de 2010. Esses meninos e meninas estavam entrando na pré-adolescência e adolescência justamente no momento de ascensão dos smartphones e de grande ampliação do acesso à internet.
Segundo Haidt, além do aumento dos episódios depressivos, os dados das emergências psiquiátricas nesse período também demonstram essa mudança problemática, como o aumento nos números de tentativas de suicídio e automutilação. Esses dados têm se apresentado com expressividade similar em vários países ocidentais.
Em pesquisa realizada a partir do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), o autor identificou um aumento nos casos referentes a "alienação escolar", manifestada em sentimentos de solidão e exclusão, e dificuldade em fazer amizades.
Esses dados apontam um declínio da saúde mental de crianças e adolescentes e coincidem, temporalmente, com o período de adoção massiva dos smartphones e o crescimento mundial de redes sociais como o Facebook, Instagram, Snapchat.
Igualmente, esses dados delineiam a ampliação da infância atravessada por experiências digitais e a diminuição da infância analógica, vivida no brincar e contato contínuo no face a face, na interação presencial e física. O desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes não pode prescindir dessas vivências. O brincar livre, inclusive desassistido do olhar adulto excessivamente controlador, é fundamental.
Para Haidt, são quatro os principais problemas desencadeados pela infância baseada no celular: a privação de sono, ocasionando desregulações hormonais e emocionais, ansiedade generalizada, prejuízos na atenção e memória, redução de desempenho escolar; além disso, o autor aponta uma correlação entre a privação de sono e maiores taxas de depressão, ansiedade e pensamentos suicidas.
O segundo grande problema é a privação social. Isso significa literalmente menos interações sociais ao longo da infância e adolescência. Interações fundamentais para o desenvolvimento humano, para o cultivo das habilidades sociais básicas e construção de identidade e relacionamentos.
Essa privação afeta o desenvolvimento da capacidade de gerenciamento de conflitos das crianças e adolescentes, da capacidade de autorregulação emocional, da capacidade de empatia. Quando a dinâmica das redes sociais substitui a dinâmica das relações sociais face a face, esse desenvolvimento é comprometido. A simples possibilidade de bloquear alguém e encerrar definitivamente uma interação social de modo arbitrário desestrutura todo o processo normal de resolução de conflitos sociais básicos, enfrentados por todo ser humano há milhares de anos.
A fragmentação da atenção é o terceiro grande problema gerado pela infância baseada no celular. Infinitas notificações das redes sociais e inúmeros aplicativos do smartphone, prazer fácil em tarefas microscópicas como passar um reels. Toda a estrutura da atenção humana é reorganizada para o engajamento fácil, para experiências rápidas. Em contrapartida, tudo aquilo que exige uma atenção mais profunda e demorada passa a ser repelido. Esse fato reflete diretamente em desempenho escolar.
O quarto problema apontado pelo autor é o vício. Redes sociais e jogos estão configurados algoritmicamente para reter o máximo possível de atenção e tempo dos seus usuários. Como outros, o vício em redes sociais e jogos afeta o sistema de recompensas do cérebro humano. Nesse cenário, o uso compulsivo e desenfreado do smartphone, assim como sintomas de abstinência ao tentar largá-lo, costumam aparecer. E podem gerar padrões de comportamentos persistentes na vida adulta.
O desenvolvido até aqui contempla metade do livro de Jonathan Haidt, a parte mais focada no rastreamento de problemas e sustentação das suas hipóteses. No restante do livro, o autor apresenta propostas para o enfrentamento dessa realidade. O livro mostrou-se denso e riquíssimo em fontes tradicionais e contemporâneas. Certamente a pesquisa do autor está além de qualquer engodo para consumo de massa.
Trata-se de um livro acessível e com grande poder de esclarecimento para o problema de como o uso de smartphones e redes sociais tem afetado as nossas crianças e adolescentes. Um tema urgente nos dias atuais, referente a uma realidade desencadeadora de problemas observados diariamente. Pais e profissionais da educação serão dos mais beneficiados com essa leitura.
Aos profissionais da educação em especial, esse livro nos convida a repensar o espaço da escola. O quanto a escola tem se estruturado para atender às demandas sociais básicas do desenvolvimento de nossas crianças e adolescentes? Escolas sem estrutura, em tempo integral, com sete ou nove aulas por dia, com meia hora de intervalo para lanche da manhã e uma hora para almoço, não parecem adequadas.
Escolas sem espaços adequados para o brincar livre, para o aprender de habilidades e competências, como nossos currículos atuais gostam de chamar, não reduzidas à sala de aula, aos livros didáticos, ao próprio currículo. E, neste, até encontramos essas propostas! Mas são apenas propostas. Enquanto a escola não for estruturada para a sua execução, a educação escolar corre risco de ser, em parte, apenas mais um elemento estressor na vida de crianças e adolescentes.

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