• Delmiro Gouveia, 31/01/2026
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Lucas Brito

A ÁRDUA E IRREDUTÍVEL TAREFA DE TORNAR-SE QUEM SE É (PARTE II - FINAL)


A ÁRDUA E IRREDUTÍVEL TAREFA DE TORNAR-SE QUEM SE É (PARTE II - FINAL) Salvador Dali - Geopolítica Criança Assistindo ao Nascimento do Homem Novo, 1943.

A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer precisa destruir um mundo – esta é uma frase angular do romance de formação Demian, de Hermann Hesse, e pode ser apontada como síntese do pensamento nele desenvolvido. 

É uma frase com uma força colossal, e a tentação de alçá-la para além do sentido do próprio autor é quase irresistível. Quem quiser nascer precisa destruir um mundo! Qual mundo? Todos os mundos que nos prendem e nos forçam a ser alguém aquém daquilo que realmente somos! Em uma leitura perdida de Nietzsche, a qual nunca esqueci, o alemão afirma: o Outro é uma limitação. Para o bem e para o mal, devido à natureza social do ser humano, isso é verdadeiro. 


Nascemos em um mundo previamente dado. Somos incorporados violentamente e, inevitavelmente, a uma cultura que condicionará todas as nossas formas de enxergar o mundo e as relações humanas, de pensar e de sentir. Assim é a existência do ser que somos. A Grande Destruição do Mundo em relação aos pilares culturais dos sentidos da existência humana está no relativismo. 


O relativismo representa a morte de Deus e do homem. Uma vez concebido que não há absoluto algum neste mundo, que valores universais são impossíveis, que o nosso Deus é apenas mais um entre milhares de deuses criados ao longo da história, que nosso “bem” e nosso “mal” são apenas construções culturais, que o ser humano nada tem de especial que não tenha sido produzido por seu próprio e frágil ego – é implodido o mundo previamente nos dado. 


Entretanto, essa é a Grande Destruição. Inúmeros pequenos mundos estão em rota de destruição em nossa trajetória de vida. No romance de Hesse, o pequeno mundo destruído e que colapsa o jovem Sinclair é o mundo da infância – uma infância doce, luminosa, acolhedora, quente como um chá de sidreira recém-infudido. 


A passagem para a adolescência e início da vida adulta é uma ameaça de morte para esse mundo. A descoberta da sexualidade, dos bares, a ampliação de um complexo de Édipo inicialmente mal resolvido reclamam a Sinclair a destruição daquele mundo infantil e seu ressurgimento em um novo mundo acinzentado. 


Esse era o mundo que Sinclair devia destruir para tornar-se quem ele era. O mundo que cada um deve destruir para tornar-se quem se é deve ser buscado pelo próprio indivíduo. Como coloca Hesse na boca de seu personagem: “A vida de cada ser humano é um caminho em direção a si mesmo, a tentativa de um caminho, o seguir de um simples rastro.” Contudo, isso não significa uma experiência voltada para o individualismo extremo e a psicologização extrema. 


A realização maior dessa existência sedenta por tornar-se si mesma não alcança seu ápice no próprio indivíduo, na exaltação plena deste e em sua centralização existencial absoluta, como se tudo no mundo devesse ser reduzido ao indivíduo e sua própria experiência. 


Por extensão, e de modo igualmente negativo no referente à redução psicológica do indivíduo, ao Eu obcecado pela autoreferência em todas as experiências. Esse indivíduo que tem de sentir, em tudo que faz, que o seu Eu medeia a experiência continuamente; no qual o Eu tem que aparecer, e geralmente se acha senhor dos sentidos que vão se erguendo para a experiência humana. 


Esse tipo de indivíduo, enraizado no individualismo e na psicologização extremos, não é a ele que a filosofia do tornar-se quem se é está voltada. Como dito na Parte I deste artigo, o tornar-se quem se é está ligado a um sentido maior. Este sentido implica um dano significativo ao Eu, principalmente no referente à sua redução psicológica. Esse sentido maior impõe ao indivíduo, como aponta Byung-Chul Han em O Desaparecimento dos Rituais, que ele se torne menos Eu, ou seja, que permita outras fontes de sentido para as coisas e o mundo, indo além do arbítrio do seu Eu. 


A partir do século XIX, principalmente, os autores começaram a chamar esse sentido maior das coisas e do mundo de vontade. Algo que está no coração do que este mundo e nossa existência são. Nietzsche chama isso de Vontade de Potência, e aponta como caminho para a humanidade o “super-homem”. Este é uma figura alinhadora da existência dos indivíduos com o sentido maior do mundo. 


Hesse foi bastante influenciado por Nietzsche, e o romance Demian transpira nietzschianismo em várias passagens. Em Demian, o mundo também possui uma Vontade que, no contexto no qual se passa a história (às vésperas da Primeira Guerra Mundial), reclama um sentido novo para o mundo. 


A abertura para um novo sentido do mundo eclode justamente com a deflagração da Primeira Grande Guerra. Da boca de um dos personagens do autor: “Este mundo, tal como é hoje, quer morrer, quer aniquilar-se, e aniquilar-se-á.” A destruição de mundo que a existência de Sinclair reclama está alinhada a esse anseio da Vontade do mundo. 


A recusa à possibilidade de que o indivíduo passe pela Grande Destruição e caia no individualismo e psicologização é um anseio para que a queda, a partir do mundo destruído, signifique a construção de um novo sentido, para um novo mundo, no qual o indivíduo não se reduz a si mesmo. Este é um desafio dos mais difíceis para a existência humana. 


Se o processo de tornar-se quem se é falha, após a Grande Destruição, o resultado é um indivíduo devorado pelo niilismo, pelo vazio existencial, pela percepção de que o mundo e a vida humana são desprovidos de sentido. São dois os caminhos principais que esse indivíduo irá trilhar: ou o caminho da autodestruição ou o caminho das medicações psiquiátricas – talvez ambos. 


Será possível a superação do niilismo, a construção de um novo mundo, sem partir para um sentido maior para a existência? Caminho destronizador do indivíduo. Para evitar uma recaída metafísica a esta altura, eu apostaria no “compromisso” como o único caminho possível para essa superação. 


Mas, assim como é iniciado e as ações referentes colocadas em prática, o compromisso pode sempre falhar; ele não é uma solução definitiva. De qualquer modo, cabe também revelar o caminho que Hesse toma em seu Demian; e este é revelado na continuação da frase com a qual foi iniciado este texto: “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer precisa destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o Deus se chama Abraxas.”



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