Lucas Brito
Fernando Cássio - Pedagogia da Incompetência (Breve Resenha)
A educação submetida ao mercado
Lançado recentemente, o livro Pedagogia da Incompetência, do professor Fernando Cássio, apresenta 40 colunas escritas entre 2020 e 2025 sobre educação. As análises do autor atravessam a realidade educacional nacional, mas o lócus é a educação do estado de São Paulo – estado mais rico do país e com a maior rede de ensino.
Esses elementos tornam a experiência educacional paulista fundamental para a compreensão da educação brasileira em nível nacional e em termos comparativos à educação de outros estados, em especial quanto ao desdobramento presente e futuro de políticas educacionais descaradamente neoliberais, ou seja – de políticas que submetem a educação prioritariamente aos interesses do sistema econômico.
Apesar de se tratar de colunas jornalísticas, em sua maioria, o autor escreve ampla e solidamente amparado em pesquisas científicas. Ele próprio é pesquisador da área educacional. A sua escolha em fazer-se presente na mídia é uma escolha política: os professores precisam fazer suas vozes e o conhecimento que produzem chegarem ao debate público.
Essa necessidade, urgente a toda a classe, o autor embasa teórica e factualmente: os responsáveis por fazer a educação acontecer, aqueles que a vivenciam diariamente, geralmente não participam da elaboração efetiva das políticas educacionais configuradoras do sistema educacional.
Estudantes e professores vivem uma estrutura educacional imposta verticalmente, elaborada por “especialistas” da educação – sujeitos “competentes” autorizados a falar sobre a educação e ditar o seu caminho. A abordagem, mais do que necessária de Fernando Cássio, presente ao longo dos seus textos, desmistifica esses especialistas, dá-lhes nome, identifica relações com o restante da sociedade e mostra os seus interesses.
Esses especialistas, “reformadores empresariais da educação”, se colocam como infalíveis. Se as suas reformas falham, deve-se a alguma variável completamente estranha às suas propostas: científicas, eficientes, baseadas em evidências. Nunca são responsáveis pelos fracassos que provocam.
Se desejamos lutar por uma educação diferente, uma das ações necessárias é: “a exposição permanente dos fracassos da reforma empresarial e, em particular, da incompetência daqueles que a elaboram e implantam nos sistemas de ensino” (Cássio, 2026, p. 10). Para tal, repito, a voz da classe docente deve chegar ao grande público, tanto mais em uma época de contínua deslegitimação de professores.
Conforme análise do autor, a incompetência dos reformadores empresariais da educação e o consequente fracasso das políticas que implementam se complementam, tornando-se o motor de um continuum de reformas – característica própria do neoliberalismo, entendido por Cássio (apoiado no geógrafo Jamie Peck), como um “regime de sucessivas desregulação e re-regulação estatais”, ou seja, reformas.
No caso da educação brasileira, a Reforma do Ensino Médio de Michel Temer é o maior exemplo. Assim como a Reforma da Reforma do Ensino Médio do governo Lula 3, que retirou alguns dispositivos da reforma inicial colapsada, mas manteve o seu coração neoliberal pulsante.
Tudo isso é parte do fundo a partir do qual o autor desenvolve as suas análises. Pedagogia da Incompetência é dividido em três partes: O ensino médio entre reformas; Nunca é hora de fazer o jogo da direita; e Negacionismo, “evidências” e mercado.
Ao longo do livro, o autor realiza as seguintes ações em seus textos: analisa como ocorreram as reformas do ensino, rastreia os processos políticos a partir dos quais as reformas se desdobraram, como o Mercado e seus representantes se imiscuíram e foram fundamentais na sua elaboração, defesa e implementação, identifica as ações do estado (em especial do estado de São Paulo) para implementar essa reforma, mostra as reações da comunidade escolar e as consequências da reforma para a educação brasileira.
Para apresentar parte do leque de situações tratadas pelo autor, coloquemos em forma de indagação o que ele desenvolve: como as reformas do ensino médio, com a introdução definitiva da pedagogia das competências, com a diminuição da formação científica (estreitamento curricular, ao ponto de disciplinas fundamentais deixarem de ser obrigatórias na primeira reforma), como a parte diversificada e toda a sua flexibilidade – como tudo isso, e muito mais trazido pelas reformas, afetou os nossos estudantes? Quais as consequências? Quais instituições privadas apoiaram, financiaram e assessoraram as reformas e sua implementação? Quem são as pontas de lança do mercado que penetraram o estado nessas “aventuras”?
Michel Temer rendeu a educação brasileira de vez ao neoliberalismo, situação aprofundada com a eleição de Jair Bolsonaro. Contudo, a derrota de Bolsonaro e a eleição de Lula deram à educação um novo caminho? O quanto o empresariado continua enredado na educação pública nesse novo contexto político? Como as abordagens “tecnossolucionistas” têm se entranhado na educação? Como têm funcionado os projetos de privatização de escolas no país, como os estados têm procedido e como o governo federal tem agido? Além disso tudo, temas importantes como a plataformização do ensino e a corrida pelos índices do IDEB também são tratados ao longo das colunas.
A terceira parte do livro apresenta colunas que tratam de como o estado de São Paulo, sob o governo de João Doria, conduziu a educação paulistana durante a pandemia. Aqui, é desconstruído o mito político de João Doria como político moderado e antítese de Bolsonaro. Ao longo das colunas, podemos observar como o estado manipulou dados, como forçou a abertura de escolas a partir de avaliações negacionistas, como conduziu uma política educacional promotora de desigualdades, o fracasso da implementação de tecnologias falhas e a ausência de suporte adequado aos estudantes, como os interesses do setor privado se sobrepuseram à saúde de milhões de estudantes e profissionais da educação.
São quarenta colunas que, unidas, apresentam um panorama significativo da educação pública brasileira nos últimos anos, especialmente no relativo a como o mercado tem se apropriado dessa educação. Por ser uma seleção de colunas, não é possível reduzir o livro a um único grande objetivo, mas a organização das colunas em três grandes temas, que formam as três partes do livro, resulta numa excelente sistematização. Enfim, trata-se de um livro importante no cenário atual, útil a qualquer um que deseje se informar sobre o que tem acontecido à educação brasileira nos últimos anos.
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