Marcos Queiroz
A balança prostituída: dois pesos, duas medidas e a cabeça de João Batista no julgamento de Bolsonaro
A história da decapitação de João Batista, narrada nos Evangelhos (cf. Marcos 6:17-29), é um dos episódios mais emblemáticos da instrumentalização da justiça em favor de conveniências políticas. João não foi morto por crime, mas porque suas palavras incomodavam os poderosos da época. Sua morte, decidida em um banquete e sacramentada pelo capricho de Salomé, simboliza a substituição da justiça pela conveniência.
No Brasil contemporâneo, ao observarmos o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, a metáfora da “balança prostituída” se torna pertinente. Não se trata de discutir apenas as condutas do ex-presidente, mas a coerência do sistema judicial. A justiça brasileira estaria aplicando a lei de forma universal ou estaria, mais uma vez, pesando com dois pesos e duas medidas?
A justiça como símbolo de imparcialidade
Desde a Antiguidade, a balança representa a justiça. Para Cícero, em De Legibus, a lei deveria ser universal, protegendo a todos sem distinção. Montesquieu, em O Espírito das Leis, reforça a ideia de que o poder de julgar deve ser neutro e livre de paixões, pois quando o juiz se torna político, a justiça se corrompe. A Bíblia já denunciava a parcialidade: “Dois pesos diferentes e duas medidas diferentes são abominação perante o Senhor” (Provérbios 20:10).
Dois pesos e duas medidas no Brasil
No cenário político brasileiro, a seletividade da justiça é frequentemente questionada. Certos atores políticos são tratados com rigor extremo, enquanto outros gozam de interpretações complacentes. O caso de Jair Bolsonaro exemplifica essa percepção. Para seus apoiadores, o processo não seria apenas jurídico, mas também político — um recado para quem desafia estruturas consolidadas.
Luigi Ferrajoli, em Direito e Razão, alerta para o risco do chamado “direito penal do inimigo”, no qual certos indivíduos deixam de ser julgados como cidadãos e passam a ser tratados como inimigos a serem neutralizados. Lenio Streck, jurista brasileiro, critica o “decisionismo judicial”, em que convicções pessoais e pressões sociais moldam sentenças, em vez de uma interpretação coerente do direito.
O paralelo com João Batista
Assim como João Batista foi entregue em uma bandeja para satisfazer interesses da corte, figuras políticas contemporâneas podem ser transformadas em símbolos sacrificiais. A questão central não é se Bolsonaro deve ou não ser responsabilizado, mas se está sendo julgado pela lei ou pelas conveniências do momento.
A prostituição da justiça se dá justamente quando ela deixa de ser universal para se tornar seletiva. O perigo não é apenas para o réu, mas para toda a sociedade: quando a balança é manipulada, todos estão sujeitos a se tornarem a próxima “cabeça” a ser oferecida.
Conclusão
A metáfora da cabeça de João Batista permanece atual porque denuncia a fragilidade da justiça quando corrompida por pressões políticas. No Brasil, o julgamento de Jair Bolsonaro deve servir não como espetáculo, mas como teste de maturidade institucional.
Se a lei for aplicada de maneira seletiva, reforçar-se-á a percepção de que a justiça brasileira funciona como instrumento de poder. Nesse caso, não se estaria entregando apenas a cabeça de um ex-presidente, mas a credibilidade do próprio Estado de Direito.
A democracia exige uma justiça coerente, imparcial e universal. Do contrário, continuaremos a repetir o banquete macabro de Herodes, em que as cabeças servem não à verdade, mas aos apetites de ocasião.
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